Ya pRiDy SkOrO!


22/01/2009


Atenção!


Moçada, os textos de agora em diante estarão no blog acima, pela maior possibilidade de interagir com quem lê e também pela facilidade para postar (principalmente de celular, o que facilita nas viagens). Este blog continuará ativo, mas sem novas publicações, apenas como arquivo. Quando o novo Blog tiver bem estruturado e maioria destes textos forem para lá, aí sim, este será desativado.

 

Valeu!

Ajudem a divulgar, eu creio ter muita coisa boa por lá e algumas andanças, além das idéias!

Um beijão!

 www.giito.blogspot.com

Escrito por Gito às 16h47
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17/12/2008


Em síntese

Deus é pássaro, mas as religiões inventaram a gaiola.

Sim! As religiões confundem, atrasam, complicam e cometem atrocidades por banalidades.

De todos os cínicos, psicopatas, fundamentalistas, os que têm envolvimento religioso de alguma maneira, se tornam os mais vis. É porque a religião acaba viciante, como a afirmação de Marx.

Entretanto, eu amo a Jesus. Suas atitudes de amor registrada nos Evangelhos.

A bíblia deveria ser lida tendo Jesus como chave hermenêutica. A vida deveria ser observada tendo Jesus como começo, fim e meio para ela.

Jesus nunca começou uma religião. O cristianismo, assim chamado, teve início em 332 e foi uma idéia de Constantino. O que deveria fazer então, era converter o nome cristianismo, para ‘CrisTantinismo’, porque foi idéia dele. Sim, em Atos, diz que pela primeira vez alguns que seguiam a Jesus foram chamados de cristãos, mas esse nome, nada representava de significativo perto das ações do Cristo.

Deus não quis templos. Por isso, plantou um jardim. Templos de paredes são jaulas e as pessoas que o freqüentam acabam gostando mais de seus tijolos que do próprio Deus. Sem contar o fato de que com um templo, as pessoas tendem a achar que Deus só mora em um daqueles e que eles são sagrados (por isso o sinal da cruz quando passam em frente de algum). Esse mundo é sagrado. Os rios, as árvores. O jardim que Deus plantou não se chamava Éden, chamava Terra. Deus voa livre, e está em qualquer lugar com qualquer pessoa ao mesmo tempo. Não vive enjaulado em missas e cultos, mas reverencia a celebração do viver que é feita sem as luzes e os aparatos sacros de uma catedral mas, sobre o chão de amor do coração.

Quem ama conhece a Deus - afirma o apóstolo.

Ele não diz: 'Quem conhece a Deus, ama.', mas todo aquele que AMA, conhece a Deus. Porquê ?

Oras, por que Deus é amor. Ele não é um ser religioso. É amor!

Religião, em latim, é ‘Religare’, ou seja, religar.

É uma iniciativa HUMANA de nos religar com Deus.

Mas toda a bíblia conta que JESUS é a iniciativa DIVINA de nos religar.

Se a idéia parte de nós, é falha.

Quando parte de Deus, é eterna.

Por isso sou alguém sem religiões, a tradição familiar não me compra. O que me comprou foi o sangue do Justo que escorreu em meu favor.

 Gito.

Escrito por Gito às 21h20
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14/12/2008


Pensamentos

Revol-ação

 

Ele foi um revolucionário. Sem reservas. Deixou cair ao chão o mastro, de pau furréca, simples que enquanto derrapava deixou fiapos em suas mãos - Ele sabia desistir e não envergonhado, desistia de bandeiras mas nunca de ideais.

Seu ideal era a revolução. Os caminhos trilhados por mais que ideológicos, eram na verdade, espirituais, coisa doutro mundo - diziam.

Se espírito clama para que pudesse ter mais tempo. Tempo suficiente para terminar uma obra. Qual ?

A Suprema Revolução.

A revolução só é grandiosa se revolucionar contudo, a alma do revolucionário.

Teve tempo para revolucionar além de si.

E com o coração esfarrapado, fes misérias. Talvez, isso seja misericórdia ...

Quem apaga as chamas deste revolucionário ?

Quem poderá lhe dizer: Basta!

Sua alma e espírito em constante revolução grita e silencia os hipócritas.

Os hipócritas são todos aqueles que estáveis, nada mais fazem além de cultuar a situação.

São estes, sepulcros caiados, como pronunciou o Senhor das Revoluções.

A revolução do homem não tinha força total. Era monitorada por um marca-passo. O seu coração de carne desacelerou, enquanto o seu coração (verdadeiro) amou.

O amor é o espírito do coração.

E misericórdia é que o mantém vivo.

 

Enquanto homem, em suas revoluções, nada pôde fazer por forças de suas mãos mortais. Descobriu-se, e revolucionado pelo senhor das Revoluções, percebeu-se imortal - fato que lhe devolveu sorriso no rosto e bondade às mãos.

[Sobre meu pai]

 

 

Lunetas e estrelas

 

Havia um homem apaixonado pelas estrelas. Para ver melhor as estrelas, ele inventou a luneta. Aí formou-se uma escola para estudar a sua luneta. Analizaram a luneta por dentro e por fora. Observaram os encaixes. Mediram as suas lentes. Estudaram a sua física óptica. Sobre a luneta de ver as estrelas, escreveram muitas teses de doutoramento. E muitos congressos aconteceram para analizar a luneta. Tão fascinados ficaram pela luneta que nunca olharam para as estrelas.

[Rubem Alves]

 

Juízo

 

Já dizia Pascal, em 1662, com muita propriedade, e que serve com efeito extraordinário, nos dias robóticos do século XXI: 'Nem ao homem mais imparcial do mundo é permitido que se torne juiz em seu próprio caso.'

 

Sabedoria de vó

 

No livro A arte de semear estrelas, pela ED.Rocco, Frei Betto conta que sua avó é cheia de sabedoria:

 

[Minha avó] falou que sabedoria é pensar com os pés; a cabeça gosta é de sonhar, mas os passos tecem a existência. Quem se cansa de andar abrevia a vida, quem prossegue afasta a morte para o depois. E que as mãos servem para acarinhar, mesmo ao arredondarem em bolinhas a massa do pão de queijo...

Disse que Deus anda cansado deste mundo, mas não acaba logo com ele porque tem esperança de que o nosso desvario termine antes.

Disse que a galinha tem asas curtas porque já foi criada para ser alimento, e não para voar; borboleta é uma cor que voa, e cavalo o animal maos imponente. O mais lindo é a cauda do pavão, criada depois que Deus visitou as Arábias.

Disse que o diabo se demitiu porque Deus não tem mandado ninguém para o inferno.

Contou que todos os dias, ao entardecer, Deus vem namorá-la; chega tímido, com muito dengo, até ela abrir o coração. Então ele entra e faz muita festa. Disse que vive no descuido da idade porque Deus anda doente de paixão por ela, o que a faz viver esquecida de morrer.

Escrito por Gito às 19h02
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27/11/2008


Uma história em Santa Catarina

 

Edvan, não me lembro, deve ser este o nome dele. Negro, num lugar com maioria de pessoas claras e olhos azuis. Ele é funcionário na empresa perto de casa. Trabalhador exímio, nota-se claramente pelas mãos grossas e a sujeira na roupa. Não sei, pelo menos foi assim que notei quando o conhecí. Não deu muito tempo para conversa. Foi um barulho. Estrondo. Nunca imaginei que ouviria algo tão horrível. Todos correram, alguns olhavam para trás. Havia uma casa no caminho, ou melhor, um casebre. Uma senhora saiu da casa com uma criança no colo, mas sem tempo para pedir socorro, continuou a correr desajeitada entre a lama e as poças, quando a casa onde estava foi varrida pelo barranco que desmoronava. Foi então, que conhecí Edvan. Ele correu na direção da senhora que gritava: Minha filha está lá dentro, por Deus, minha filhinha!

Tratou de acompanhá-la, enquanto ela vinha em minha direção.

Edvan, me olhou nos olhos com olhos de quem reflete a coragem dos heróis e perguntou: Você pode cuidar dessa senhora ?

Antes de responder, ele percebeu que eu consentia com minhas ações, quando, fez o sinal da cruz e correu. Outros funcionários da indústria corriam, carregando pás e enxadas. Só Edvan, nada levava além de uma capa de chuva, um boné vermelho surrado e uma bota de bico de ferro, que ao pisar nas poças, fazia um barulho e espirrava lama para todos os lados, inclusive em seu rosto.

Enquanto, todos cavavam, ele desesperado, tentava adivinhar se haveria uma janela lateral. Com uma pá e certo desespero, conseguiu bater no que imaginou ser tijolos da parede. Depois de algum tempo, conseguiu ver por entre as vigas, barro, lama, água, sujeira e restos do que antes era uma casa, um cabelo loirinho. Suja de lama, as lágrimas que escorriam fazia um caminho digno de ser admirado, pela bochecha clara e lisa. Edvan, não queria admirá-la. Tratou de com algumas palavras, acalmá-la. Depois de mais algum tempo, a menina magricela, conseguiu sair pelo buraco que os homens da indústria fizeram entre escombros. Ela tinha um braço roxo, possivelmente quebrado e alguns arranhões. Toda molhada. O rosto dela colou no de Edvan, que a abraçou com força e a devolveu para a mãe que chorava compulsivamente na secretaria da indústria.

Quase nesse momento, Edvan recebeu um comunicado de uma ligação. Ainda ativo, como que se estivesse eletrocutado, pegou o telefone com a mão menos molhada:

- Alô ?

- Edvan ? Edvan! A nossa casa está alagada. Os meninos estão bem. Hoje, dormiremos na escola que virou albergue. Você está bem ? Tá tudo bem ?

- Graças a Deus. Tá tudo bem. - Soltou o fôlego e continuou: Por um momento achei que eu poderia nunca mais vê-los.

- Como assim, Edvan ? Aconteceu algo ?

- Não. É que eu conseguí devolver uma criança para a mãe.

- O quê, como assim ?

- Depois eu explico. Com calma. Por um momento eu entendí o coração de Deus.

- Que papo é esse, Edvan ?

- Deus, entrou na lama para devolver os filhos ao Pai. Entende ?

- Não Edvan, não entendo. Mas depois a gente conversa. Tem mais gente aqui na fila querendo usar o telefone.

- Ok. Amo vocês!

- Também amo você.

 

Alguns não foram resgatados a tempo. Ninguém entende uma tragédia. Mas no meio de tanta bagunça, há sempre tempo de pessoas fazerem boas coisas. E quando fazem, compreendem, nem que seja incompreensivelmente, o inexplicável. Edvan fez isso e se surpreendeu com tal sentimento. Ele beijou o crucifixo que o acompanha no peito e enquanto olhava a menina de olhos azuis, chorou e limpou as lágrimas com as mãos calejadas.

 

Nesse momento, eu pedí ao Senhor:

 

Deus, faça com que a dor dos que perderam tudo cesse.

Que neste momento, eles encontrem amigos e irmãos e veja que o melhor que destes a eles, a vida, foi poupada.

Para isso, que eles compreendam, que a de outro Ser, foi tomada.

Que eles tenham colchão, água limpa, alimento e todo o necessário para continuarem.

Acalma-lhes o coração, Deus.

Que eles sintam o amor de toda uma nação. Há caminhões com suprimentos saindo de todas as partes. Há um povo angustiado, sentindo a dor dos queridos e dizendo, com ações: Nem as muitas águas podem afogar este amor.

Acalma-lhes o coração e restitui o que foi perdido.

Como a moça na TV, que perdeu tudo e estava num abrigo, declarou: Eu estou feliz. Feliz porque os alimentos chegaram e a água também!

Como ela conseguiu se alegrar com comida e água que havia chegado depois de ter perdido tudo ? Sim, pela paz que excede todo o entendimento.

Dê aos teus filhos, é o que peço, sendo um deles.

 

E assim, me contou o menino loiro, parente próximo da menina de olhos azuis.

 

Gito.

Escrito por Gito às 19h16
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A inteligêcia e a Sabedoria

 

O nosso querido Aurélio, define inteligência, como: faculdade ou capacidade de aprender, apreender, compreender ou adaptar-se facilmente; intelecto, intelectualidade. Destreza mental, agudeza, perspicácia.

 

E define sabedoria como: grande conhecimento; saber, ciência. Qualidade de sábio. prudência, sensatez.

 

Eu diria mais: Os inteligentes adquiriram inteligência. Os inteligentes tiveram a sabedoria para estudar a inteligência. A inteligência é o acúmulo de conhecimento. É uma biblioteca mental. A inteligência é o acúmulo de compreender, observar e decorar. A inteligência ganha concursos e passa em vestibulares. Por causa da inteligência, alunos exemplares têm suas fotos colocadas em murais na escola, em Outdoors ou em capas de revista. Em diversas funções, os inteligentes se destacam. E são muitos. Há um batalhão de seres inteligentes. As filas nos concursos públicos, dobram esquinas, inteligentes em disputa de inteligência. Todos seres criados em cursinhos. Os cursinhos criados com inteligência é para domesticar os inteligentes e fazê-los pensar, de forma, que o que pensam, é acúmulo de conhecimento e informação direcionada - ou seja, ensina-se a inteligência exata, a que faz, passar nos testes, nos concursos.

 

Salomão, foi inteligente o suficiente para fazer uma opção certa. Pediu a Deus, sabedoria. E a obteve.

 

Só um ser inteligente é capaz de saber que sem sabedoria é impossível coordenar com excelência um povo. Só o sábio coordena o povo.

 

A inteligência elege presidentes e coloca reis em tronos. A sabedoria percebe presidentes e discerne quem é rei - e com isso, não vota, faz com que a escolha seja não determinada por QI's e sim, por capacidade e influência.

 

O inteligente resolve questões complicadíssimas, mas se perde em situações do cotidiano - porque o que foge da lógica, dos teoremas, e das interpretações livrescas, é absurdo para estes. O sábio resolve com simplicidade tais questões, com fé, com silêncio, com o acúlumo de conhecimento mais amor. Essa é a alquimia da sabedoria. É o conhecimento com uma pitada de simplicidade e temperada com amor. Os sábios na grande maioria, não sabem que são e quando sabem são suficientemente simples para orgulhar-se de assim serem. Os sábios na grande maioria, são pessoas ligadas com pessoas, com a dor, com a natureza e consigo mesmo. O sábio é um ser cheio de magia. Ele consegue compreender o absurdo. Consegue enxergar o invisível. Consegue ouvir o silêncio. Consegue trazer Deus para dentro de si ao mesmo tempo que Ele não sai do céu, nem do cosmos, do macro e do micro. O sábio é silencioso. O sábio nunca diz que é, nem se percebe assim. Ele só é assim porque sabe que até uma lesma pode ensinar. Enquanto sábio, ajoelha e contempla perplexo a complexidade da trilha das formigas até os formigueiros.

 

Na pós-modernidade, os sábios estão escondidos. A maior parte deles, estão escondidos na velhice, descobrindo essa fase, percebendo o que há de vir. É raro, os sábios se mostrarem na TV. Eles geralmente não são ouvidos, não dão IBOPE, não são lidos, são mal interpretados. Os jovens não gostam de conversas de sabedoria. Gostam das de entretenimento. Não há mais rodas nas comunidades, onde os velhos contavam estórias sobre os segredos da floresta, ou a verdade sobre a chegada dos portugueses, ou explicavam com duas ou três palavras assuntos filosóficos cegamente discutidos nas faculdades. Como declarou Nietzsche, em 1882. 'Ele é um pensador: isto é, ele sabe como tornar as coisas mais simples do que elas são.'

 

 

Os sobre-viventes da pós-modernidade se julgam sábios porque fazem downloads nos computadores de boa velocidade, porque há vídeos, filmes, porque conseguem rápido e fácil tudo o que desejam. Acham que tecnologia é a onda do momento. Um botton, muito popular na década de 70, tinha inscrito, com muita propriedade, uma frase de Cedric Price: Tecnologia é a resposta, mas qual era a questão ?

 

 

Para pensar e pensar simples.

 

Gito.

 

 

 

'Quem sabe que é profundo, busca a clareza; quem deseja parecer profundo para a multidão, procura ser obscuro. Pois a multidão toma por profundo aquilo cujo fundo não vê: ela é medrosa, hesita em entrar na água'

 

Nietzsche

Escrito por Gito às 17h07
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31/10/2008


Caipira

 

Eu sou caipira. Gosto de roda de viola, no meu caso, é violão, mas o batidão da viola é mais imponente. Gosto de fogueira, de mato, terra, cheiro de capim molhado.

Eu sou caipira. Gosto de morder o mato. Gosto até de chapéu. Só não me dou bem com botas (ou botinas) - me acostumei com o conforto dos tênis, e gosto de andar descalço. Talvez seja por isso, que eu sempre me sinto mal diante da moça que vende roupas de grife na loja do Shopping. Ela me olha como se eu fosse um daqueles manequins brancos, sem face. Talvez seja porque a minha alma não nega, sou caipira. E ela de alguma forma, percebe isso. Bicho do mato. Eu lembro que quando menino, eu me apeixonei pela música que vinha de Seatlle, talvez seja porque eles não eram estereotipados, mas vestiam-se como lenhadores e por mais distorção que havia nas guitarras, havia um tom de melancolia que vem de quem vive nos interiores - inclusive a angústia e os bérros, gritos de desespero é do típico mateiro. Que não sabe como resolver os problemas, por isso, gritam contra eles, para que talvez, eles se assustem.

Eu sou caipira. Talvez seja por isso que gosto de música com menos artifícios eletrônicos possível. Na minha opinião, música eletrônica, não existe. É uma sequência de vibrações não-produzidas por mãos humanas. Por mais que os Dj's toquem Pic'ups, os sons não surgem no momento. Eles já existiam - só estão sendo re-tocados. Tenho pena de nossa des-brasilidade. Temos vergonha de Zabumba, réco-réco e pandeiro. Temos vergonha do nosso vinho Chapinha. Temos vergonha de quase tudo que é nosso. Só não temos vergonha de mostrar pros gringos que temos praia e bundas. Por causa das bundas, o Brasil se tornou uma das maiores indústrias de filmes pornográficos do planeta. O caipira chama pornô de safadeza. Mas ele não é tão besta assim - sabe o que é, mas na 'simplicidade' que existe nele, ele acha que sexo é uma coisa muito diferente de pornografia. Pornografia é como a música eletrônica. Existe, mas não é. Tocam mas é som combinado. Transam, mas é combinado também. Até o prazer é combinado e na maior parte das vezes, vem de muito pó ou de estimulantes.

Como caipira, amo a Deus, mas corro do lobisomem e já vi saci-pererê. Esse misticismo existe em todos nós. Mas a gente não fala sobre, porque a gente acha que Deus vai ficar furioso e se não nos arrependermos a tempo, nosso futuro será infernal. O bom da crença é a incerteza (e os vacilos) que ela produz - isso é fé. É a certeza das coisas que os olhos não vêem. E em crenças - pode-se acreditar em tudo, imaginar tudo e viajar com o poder da mente. Há de se acreditar em tudo, menos em Deus. Porque quando se acredita Nele, transforma-O em mais algo a ser crível, assim como a possibilidade de não ser. Deus não é uma possibilidade. Quem experimenta a magia de viver, já vive com Deus, porque Deus é a vida. Quem canta o refrão do amor, canta sobre Deus - Deus é canção. Quem voa livre e sem pesadelos - voa com as asas de Deus - Ele é pássaro. Quem 'acredita' em Deus é tão tolo quanto os que não acreditam. Deus não é um ser para ser crido, mas para ter relacionamento. Acredita-se mais na igreja, na doutrina importada da Europa medieval, no poder da religião e na palavra do sacristão - e acredita-se muito no capeta, pelo medo dele atazanar a gente - do que em Deus. Eu não preciso acreditar que a lua exista e nem fico fazendo cursos que ensinam como provar sua existência. Eu apenas a observo e recebo dela a claridade que vira minha sombra na escuridão da noite. Sei que ela está comigo, de alguma forma, por mais que eu não possa tocá-la - ela me toca e sua claridade me alcança e sua gravidade pendura a terra e organiza as marés - algumas mulheres até cortam os cabelos de acordo com a maré; mas na verdade, é de acordo com a lua.

Vou tentar ser caipira a vida toda. Rezem por mim, é muito difícil, depois que inventaram a televisão e a televisão inventou a novela, que por sua vez, inventou a superficialidade, a mentira, as atrizes e modelos magricelas, o egoísmo ...

Sendo caipira, eu sou mais eu. Por mais que ridicularizados, os 'Jécas' não têm medo de viver e transformam a complexidade do mundo num simples privilégio de respirar o ar e honrar o Sopro de vida, a vida toda, com toda a vida e toda força.

 

Gito.

Escrito por Gito às 12h59
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22/10/2008


Jornal Remissão - Campos, RJ

 

 

A Teté, minha amiga, de Campos no Rio, pediu pra eu escrever o meu comentário/opinião pro Jornal cristão que rola por lá e tem uma boa circulação pela cidade. Obrigado Teté, por lembrar-se. Essa é a enquete/opinião:

 

 

O que falta fazer para que mais nações conheçam a Palavra de Deus?

 

Falta muito, ao mesmo tempo, muito pouco. A globalização facilita muito para que o Evangelho seja 'de todas as nações para todas as nações', o problema com a globalização é que ela atrapalha pelo fato de que, os mais globalizados influenciam mais e que  nunca o Evangelho chega des-culturado para semear o amor e deixá-lo crescer com o jeitinho local, a cultura e o sotaque. O Evangelho Globalizado sempre chega com formato ocidental, com músicas próprias, interpretações teológicas que funcionam quase bem nas culturas de modernidade ou até mesmo pregadores inconfundíveis, com modo próprio de falar, ternos de grife e jeito americano.

Isso faz com que o Evangelho que chega na vila remota de Guiné-Bissau, tenha a nossa cara. Qual a solução ? Menos vídeos, equipamentos digitais e mais contato. Pessoas que caminham juntas, missionários que conhecem da cultura e não a deteriora, mas a redime, com carinho e cuidado, para a Glória de Deus. Compartilharão à respeito da Obra do Cristo das nações e aprenderão juntos, como serví-lO.

Em resumo, precisamos mais de envolvimento do que investimento. Aos moldes antigos - muito mais do que investimento financeiro - precisamos de gente que acredite com toda a força que fomos convidados a expandir o Reino de Deus, que é Amor, a todos os povos da terra. Ter coragem suficiente para arrumar a mochila e Graça suficiente para saber que aqui, nada mais podemos ser, do que peregrinos e embaixadores - essa é a palavra de Deus: Que Deus amou o mundo de tal maneira!

Muitas nações ainda não conhecem a palavra de Deus. Outras, no entanto, conhecem muito sobre a Palavra e pouco de Deus. E a nação cristã, espalhada pelo Brasil, precisa mais do que conhecer, mas acreditar que o amor de Deus é suficiente para transformar o Mundo - ainda que o Mundo a nossa volta, ainda que o Mundo de uma só pessoa.

Gito.

 

Escrito por Gito às 12h03
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18/10/2008


Desfechos

A greve da Polícia civil de São Paulo, que luta por aumento, é um problema direto com o governador do Estado, José Serra, intermediado por Paulinho da Força Sindical - o que leva o governador a dizer que tudo não passa de artimanhas políticas.

Os militares, proibidos de entrar em greve sob rigorosa lei de afastamento, entraram em choque com os civis durante a manifestação que eles realizavam em direção ao Palácio dos Bandeirantes - ainda que os oficiais militares, não recebem aumento desde o governo Fleury, em 1994.

Serra afirmou que 'Dinheiro não nasce em árvore'.

Com o dramático desfecho do sequestro de Eloá e sua amiga, em Santo André, pelo ex-namorado e maluco Lindemberg Alves, as notícias tomaram outros cursos e os sensacionalistas pela audiência, dão agora, atenção dobrada ao caso, no hospital com as vítimas, na prisão com o sequestrador e na Sede do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) da polícia militar do estado de São Paulo - além dos enormes debates sobre namoro na adolescência, problemas psiquiátricos, ações de seqüestro, etc.

Para Serra, isso ajuda, queira ou não queira. O desfecho dramático do sequestro, como dizem os da minha terra, 'cabe no rabo dos militares', já que o assunto da greve era um problema direto com o governo - e governador.

Para efeitos de imagem e desconversa dos problemas causados pela greve dos policiais civis, o governador quase que agradece aos Militares por explodir a porta do apartamento equivocadamente.

Limdenberg foi o protagonista certo para tirar os civis e o governador de cena.

Escrito por Gito às 13h33
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17/10/2008


Em vez de um show


Eu odeio todo o seu show e pretensão
A hipocrisia do seu louvor
A hipocrisia de seus festivais
Eu odeio todo o seu show
Longe da sua adoração barulhenta
Longe dos seus hinos barulhentos
Eu tapo meus ouvidos quando você os canta
Eu odeio todo o seu show
Em vez disso, deixe que seja uma inundação de justiça
Um processo sem fim de retidão
Vivendo, vivendo
Em vez disso, deixe que seja uma inundação de justiça
Em vez de um show
Seus olhos estão fechados quando você ora
Você canta certinho com a banda
Você lustra seus calçados para os serviços
Mas tem sangue em suas mãos
Você virou as costas para o desabrigado
E aqueles que não se encaixam nos seus planos
Terminam fazendo jogos da religião
Tem sangue em suas mãos
Ah! Vamos discutir isso
Se seus pecados são sangue vermelho
Vamos discutir isso
Vocês serão brancos como as nuvens
Vamos discutir isso
Acabam se fazendo de tolos
Dê amor para aqueles que não conseguem amar
Dê esperança para aqueles que não tem
Erga aqueles que não conseguem se erguer
Em vez de um show
Eu odeio todo o seu show

 

Letra e música de Jon Foreman - vocalista da banda Switchfoot, em seu álbum solo. Assista ao clipe: http://www.youtube.com/watch?v=E53qJxltyfI

Escrito por Gito às 23h35
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O tempo foge.

 

Eu tenho saudade do futuro ...

Todas, até das que me cicatrizariam.

Mas quem poderá me dizer se elas ainda existem aqui ?

Isso, acaba quebrando as regras do tempo.

Mas é fato. Sempre quando sentimos saudade do que virá, demos um nó nos relógios.

O tempo foge. Mergulhados estamos no que virá pela certeza de que cedo vem. Tenho saudade da minha velhice. E póstumo.

Tenho saudade da vida que tive, quando tiver 73 anos.

Tenho saudade, não só da minha infância, mas morro de saudade do agora. Ele já se foi, quem poderá trazê-lo de volta? Eu desejaria. Só para ter mais tempo com você. Amo o tempo que estou contigo, odeio despedir-me, ainda junto, sinto falta por antecipação. Seria isso, conseguir dar um nó no tempo ?

Sim, eu consigo enganá-lo. Ele vem, com pressa. Dias, sol, lua, escurecer, alvorada, crepúsculo, sono, sonho, dias, aniversários, rugas, barbas e fios de cabelos brancos. Ele vem depressa. Mas quem disse que eu preciso caminhar com ele ? Há muito, eu conseguí enganá-lo, mas nunca me rendí. Aprendí, que chegará a vez em que ele virá para levar-me a um lugar fora de tempo.

Talvez eu tenha cabelos brancos. Talvez eu tenha juventude. Talvez eu use no corpo novo uma camiseta velha. Talvez eu use num corpo velho, um relógio novo. Talvez eu tenha usado tudo o que fui para ser. Com toda certeza, terei tido o tempo suficiente para amar. Sido suficientemente amado. Sentirei saudades desse planeta onde o azul dos céus nos deixam apaixonados e onde as ondas do mar nos deixam embriagados. Não queria sair daqui. Só irei para outro lugar, em qualquer espaço, dimensional, se for melhor que aqui ou se você me prometer que estará lá comigo.

 

Que escrevam o meu epitáfio com as palavras do poeta Robert Frost: 'Ele teve um caso de amor com a vida.'

 

Gito.

 

Escrito por Gito às 23h14
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16/10/2008


Você

Não sou um bom jogador
Não sei dizer frases feitas
Nada parece ser como é
Posterga-se toda dor

Faça-se a razão
Deixo tudo em suas mãos
Tudo que pensei por ontem
Hoje não mais tentar

Quem na vida de bons cidadãos
Ruas iluminadas roupas limpas
Nada parece ser como é
Onde há muros há o que esconder

Faça-se a razão
Embaixo dos olhos da escravidão
Não repita o que fez ontem
Hoje não mais duvidar

Sofrer por você
Viver lutar
De joelhos hesitar
Por não te desejar

Passos largos em direção
Desejos por trás de desejos
Sem te ter amor

Por todas as contas, por todos os objetos
Essa é a tendencia, isso é viver
Por mais coêrencia, mais acertos, muito mais alvos
Muito mais cor

Sofrer por você
Viver lutar
De joelhos hesitar
Por não te desejar

Passos largos em direção
Desejos por trás de desejos
Por tanto te odiar
E por isso cantar
Por isso trabalhar, por isso roubar

Por mais forte que seja
Você está aqui, dinheiro.

 

Dead fish - assista ao clipe desta canção: http://www.youtube.com/watch?v=2RPa-kf1vnQ&feature=related

Escrito por Gito às 14h46
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Esperança

    

 

 Na noite seguinte um homem perguntou:

'Mestre Benjamim, o que é a esperança ?'.

Mestre Benjamin acariciou a barba e fechou os olhos. Procurava adivinhar as razões por que aquele homem lhe fazia aquela pergunta. Seu rosto tinha as marcas do desânimo. Era possível que a pequena chama estivesse se apagando...Assim, tratou de responder à dor que se escondia na pergunta.

   'A esperança serve para dar alegria aos tristes. Ela é uma estrela. Estrelas não aparecem durante o dia. Estrelas só brilham durante a noite. Somente aqueles que caminham de noite podem vê-las.'

    'Mas as estrelas estão muito longe, nos céus. Como podem elas alegrar os tristes da terra?', continuou o homem.

    'Você está certo. As estrelas estão muito longe. São inatingíveis. É possível que muitas delas nem mais existam...'Mas que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?' (Valéry)

   O que não existe pode nos ajudar ? Os sonhos...Os sonhos não existem. No entanto é com os sonhos que os que não têm esperança de alimentam.

 

   Se as estrelas são inatingíveis

   isso não é motivo para não querê-las...

  Que tristes os caminhos se não fora

  A mágica presença das estrelas...

                                                        (Mário Quintana) 

 

Mestre Benjamin voltou-se para o seu lado direito e tomou nas suas mãos um grosso pergaminho, que foi desenrolando cuidadosa-mente até que parou diante de um texto.

    'Aqueles que vêem as estrelas ora são chamados de poetas, ora de profetas. foi durante uma noite muito escura que um profeta viu essas estrelas inatingíveis.

 

    'Que o deserto e a terra sedenta se alegrem,

     que as caatingas e os cerrados se regozijem [e se transformem em flores! Que se cubram de lírios.]

    Que se regozijem e gritem de prazer!

     Fortalecei os braços fracos, fortificai os joelhos vacilantes!

     Dizei aos ansiosos: Não há razões para medo!

     Porque se abrirão os olhos aos cegos

     E os ouvidos dos surdos ouvirão,

     Os aleijados saltarão como cabritos,

     E a língua dos mudos cantará.

     Águas rebentarão nos desertos e riachinhos nos lugares abandonados. A areia embraseada se transformará em lagos e a terra sedenta em mananciais de águas. Onde outrora viviam os chacais crescerão as pastagens com papiros e juncos. E os caminhos serão caminhos de prazer. Quem por eles caminhar não se perderá, nem mesmo os loucos'

(Isaías 35,3-8)

 

    'E as espadas serão transformados em arados

    E as lanças em tesoura de podar.

    O lobo habitará com o cordeiro e o leopardo se deitará junto com o cabrito. O bezerro, o leão novo e o animal cevado serão amigos e uma criança os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, o leão comerá palha com o boi e a criança de peito brincará sobre o ninho da cobra e o recém-desmamado enfiará a mão na toca da serpente' (Isaías 35, 2-4)

 

   'Aqueles que andavam nas trevas verão de novo raiar o dia, e aos que viviam na região sa sombra da morte resplandecerá a luz. Porque todas as botas com que andam os guerreiros no tumulto da patalha e todas as fardas manchadas de sangue serão queimadas, serão lenha para o fogo. Porque um menino nos nasceu e um filho se nos deu. E dos risos dessa criança nascerá a sabedoria, e da sua mansidão surgirá a força, e nos seus olhos brilhará a eternidade, e haverá paz sobre toda a terra.' (Isaías 9: 2-6; paráfrase.)

 

   

     Mestre Benjamin continuou: ' A esperança vê o que não existe no presente. existe só no futuro, na imaginação. A imaginação é o lugar onde as coisas que não existem, existem. Este é o mistério da alma humana: somos ajudados pelo que não existe. Quando temos esperança, o futuro se apossa dos nossos corpos. E dançamos. O poeta que escreveu esses poemas estava embriagado de esperança. E quem é possuído pela esperança fica grávido de futuros.

    'Vou ler para vocês palavras de um homem que a vida toda ouviu a música do futuro. Muitos acharam que ele era louco e não entendiam o que ele falava. Só o entendiam aqueles que se alimentavam de esperança. O homem se chamava Friedrich Nietzsche.

 

     Acordai e ouvi, vós que estais sozinhos.

     Do futuro vêm ventos com os bateres de asas [secretos; e boas novas são proclamadas a ouvidos delicados.]

    Vós que hoje estais sozinhos. Vóis que sois retirantes, um dia sereis o povo: de vós, que escolhestes [a vós mesmos, crescerá um povo escolhido [-e dele, o homem transbordante.

     Na verdade a terra ainda se tornará um [lugar de recuperação.

     E já agora uma nova fragrância o envolve, trazendo salvação e uma nova esperança.

 

    

     "O mais surpreendente nisso tudo é que a estrela inacessível tem um rosto de criança....

     Aqueles que ouvem a melodia do futuro plantam árvores cuja sombra nunca se assentarão. Mas não importa. Eles se alegram imaginando que as crianças amarrarão balanços nos seus galhos..."

 

     Naquela noite, todos sonharam que plantavam árvores...

 

 

Perguntaram-me se acredito em Deus - Rubem Alves - Ed. Planeta.

Escrito por Gito às 14h10
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01/10/2008


Um lugar

 

Há um lugar, onde só se permanece descalço e em nudez completa. Quem insiste em se vestir, é convidado a aprender o segredo de não ter segredos e inda assim ter pudor. Nada de roupas. Nada de jóias. Nada de gel para cabelos. Nada de máscaras e maquilagem.

Há um lugar onde não se aceita sorrisos desde que ele brote da mais profunda alegria pelo viver e que se torne em risada, escandalosa, de tirar o fôlego. Não há sorrisos mecânicos. Sorrí com a alma, depois o rosto se move. Nesse lugar, se dá preferência ao silêncio, ao choro e ao anonimato - pés descalços.

Há um lugar onde não existem palavras. Há expressões de amor e elas são sem falatório. Todos compreendem e se sentem amados. Ao invés de recados na geladeira, há carinho nos cabelos. Ao invés de 'eu te amo', há um abraço silencioso que resume tudo. Ao invés de afirmações, Deus mostra as mãos.

 

Gito

Escrito por Gito às 23h35
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30/09/2008


Sobre a salvação de minha alma - Rubem Alves


As coisas que tenho dito sobre Deus fizeram com que muitos dos meus leitores ficassem temerosos sobre o futuro de minha alma, no outro mundo. Acham que vou para o inferno. Eles pensam que, se a gente não pensar certo, Deus castiga. No inferno estão os pecadores que roubaram, fornicaram e mataram, e aqueles que ousaram pensar suas próprias idéias. Pensar certo, na cabeça deles, é pensar do jeito como pensam os padres e os pastores. Para tranquilizá-los vou me explicar.

Sobre a Bíblia. Eu a estudei muito e a amo. Para mim ela é um poema cujas palavras me confortam e me fazem mais sábio. Mas é preciso fazer uma distinção entre as palavras do poema, escritas, e aquilo que as pessoas pensam, ao lê-lo. Toda leitura é uma interpretação, isto é, os pensamentos das pessoas que a lêem. Todo sermão é pensamento de um homem e não pensamento de Deus. A interpretação é diferente do poema. Cada igreja, cada congregação, cada seita se organiza em torno de uma interpretação particular, palavra de homem. Mas cada uma delas tem a ilusão de que a sua interpretação é a Palavra de Deus. Sendo a Palavra de Deus, é única verdadeira. É muita presunção pensar que somente a minha seita interpreta certo e todas as outras interpretam errado. O que eu escrevo é a minha interpretação, tão problemática quanto qualquer outra. É preciso não se esquecer da sábia afirmação do apóstolo Paulo: Nós não sabemos direito as coisas; o que vemos são reflexos trêmulos e obscuros num espelho mal polido. É preciso não confundir os reflexos no espelho com o rosto verdadeiro que ninguém jamais viu. De Deus, a única coisa absolutamente certa que conhecemos é o amor (1 Cor. 13).

O que é a fé? É também uma questão de interpretação. Pessoas há que pensam que fé é um recurso mágico que garante que Deus vai nos atender. Para elas um Deus que não atende pedidos é um Deus muito fraco. Elas desejam garantias. Na minha interpretação fé é uma relação de confiança com Deus: é flutuar num mar de amor, como se flutua na água. Quem é que ama mais o pai? Aquele que é fiel ao pai porque ele lhe dá os presentes pedidos, ou aquele que ama o pai, mesmo que ele não lhe dê presentes? A gente ama o pai é pelos presentes, bênçãos, que ele dá, ou por ele mesmo? Amo a Deus mesmo que não me dê presentes.

Acho que Cristo enche todos os espaços do universo. Lutero falava da ubiquidade do corpo de Cristo e dizia que ele está presente até na menor folha, muito embora nas folhas o nome dele não esteja escrito. Quem ama uma folha ama Cristo. Quem tem amor respira Cristo, mesmo que não fale o nome dele. Tiago diz que os demônios sabem tudo sobre Deus e, no entanto, são demônios. Os reformadores falavam no Christo absconditus – isso é, o Cristo escondido, invisível, sem nome, em toda a Criação. Quem ama, mesmo que não cite as Escrituras e nem saiba o nome de Cristo, está nele. Cristo não pode ser engarrafado em nomes religiosos. Isso seria heresia, negar a sua onipresença.

As Escrituras Sagradas são um livro enorme. Muitos dizem que as Escrituras inteiras são inspiradas. Se realmente acreditam nisso, então todos os textos têm de ser objeto do nosso amor, são “palavras de Deus“. Noto, entretanto, que eles se comportam como se alguns textos fossem mais inspirados do que outros. Fazem silêncio sobre muitos textos. Por exemplo, nunca ouvi sermão católico ou evangélico sobre “Amada minha, em tua língua há mel e leite. Teus seios são como duas crias gêmeas de gazela...“ (Cânticos 4:11, 5); “Anda, come teu pão com alegria e bebe contente o teu vinho... Goza a vida com a mulher que amas todos os dias da tua vida...“ (Ecl. 9:7 e 9). Por que o silêncio? Acho que, secretamente, eles acreditam que uns textos são mais palavra de Deus do que outros...

E quanto ao destino de minha alma, não se preocupem. Foi Jesus mesmo que disse aos fariseus, religiosos que viviam citando as Escrituras e tentando converter os outros, que as meretrizes entrariam no Reino dos Céus antes deles. E notem: Jesus não disse: meretrizes arrependidas. Entram as meretrizes mesmo. Depois delas, então, entram os fariseus hipócritas e tudo o mais que Deus criou. Deus criou tudo, não é? Se ele criou tudo, vocês acham que ele ia entregar ao Diabo aquilo que saiu das suas mãos? Um Deus que é todo amor não pode ter, na eternidade, uma câmara de torturas sem fim em que as almas sofrem por pecados cometidos no tempo. Dívidas no tempo ficam dívidas eternas? Só se Deus for dono de banco...Quem iria ficar feliz com isso é o Diabo. E vocês acham que Deus está a fim de realizar os desejos do Diabo? No fim, o amor de Deus triunfa! E nós todos, vocês, eu, meretrizes, e tudo o mais, estaremos entrando...

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

Escrito por Gito às 22h56
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O que amo na igreja - Rubem Alves

Acho que o Papa deveria promulgar uma encíclica tornando obrigatório o uso do Latim nas coisas da Igreja. Assim eu me converteria. Os padres modernosos, que gostam de ensinar e conscientizar, dirão que o latim ninguém entende. Retruco: pois só assim eu me converteria. Seria preciso que eu não entendesse nada. Os carismáticos estão certos. Falam línguas estranhas, e nessa estranheza se encontram com o seu Deus. Um Deus que se compreende não pode ser grande coisa. Um mar que se compreende não passa de um aquário. A. Gottlieb disse que os seus símbolos favoritos eram aqueles que ele não entendeu. Digo amém. Por isso amo o latim: porque não o entendo. Como não entendo os riachos, os pássaros, o vento, as minhas netas, e os amo todos.

Minha educação foi protestante. Os protestantes tinham raiva dos católicos. E com razão. Latim era coisa de padre. Por isso protestante não estudava latim. Assim, não aprendi. Mas amo o latim por causa da música. Cristal puro. Beleza das esferas cósmicas. Se papas, bispos e padres só falassem latim eu me converteria à Igreja: precisamente por não entender a letra da música que eles cantam, e ouvir a melodia do brando encanto do seu canto.

Tenho uma teoria sobre o Pentecostes. Como é sabido, naquele dia os apóstolos falaram a língua que sabiam falar, e todo mundo ouviu como se fosse nas próprias línguas estranhas que eles, turistas estrangeiros, falavam. Para mim só existe uma possibilidade de explicação desse milagre. Eles não falaram. Eles cantaram. Ali se inventou o vocalise. Vocalise é uma canção sem palavras. A voz é usada como um instrumento. Pura voz, pura música, pura beleza, sem sentido, sem nada dizer. Por isso, por nada dizer, todo mundo entende. Quem não sabe sobre que estou falando que escute a Bachianas Brasileiras n. 5, para soprano e oito violoncelos. Ou a Pavana, de Gabriel Fauré, cantada pela Barbra Streisand. A beleza não precisa do sentido. Ela salva sem nada dizer. Sim, eu me converteria a uma religião onde as palavras fossem silenciadas para que a música pudesse ser ouvida.

Assim fico eu diante da Igreja, repetindo o poema do Ricardo Reis:

“Cessa o teu canto.
Cessa, porque enquanto o ouvi
ouvia uma outra voz
como que vindo nos interstícios
do brando encanto com que o teu canto vinha até nós...“

Não quero entender nada do que se diz. Na verdade, não quero que coisa alguma seja dita. “A Palavra“, diz a Adélia, “é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada.“

Neste momento estou ouvindo canto gregoriano da Schola Ungarica. Agora entraram as vozes femininas dos meninos. Cantam em latim. Que estão dizendo? Sei lá. E nem quero saber. A beleza me basta. A beleza faz amor com o corpo. Por isso ele treme e chora. As palavras ficam na cabeça. Lembro-me do dito por Kierkegaard, um filósofo protestante que entendia dessas coisas: “A Verdade não está naquilo que é dito mas no como ele é dito.“ Deus não está na letra. Está na música.

Para amar a Igreja eu paro de pensar. É preciso fazer dormir a minha inteligência. Recito o verso o Alberto Caeiro: “Pensar é estar doente dos olhos“. Cessado o pensamento eu me transformo num ser só de sentidos, do jeito mesmo como nasci. Eu sou olho, ouvido, nariz, boca, pele. Vejo, ouço, sinto cheiros, sinto gostos, sinto toques. Amo a Igreja por suas artimanhas erotizantes, por aquilo que ela faz com os meus sentidos.

O canto gregoriano continua. Vai fazendo sua tarefa de sedução sensual. Penetra suavemente nos meus ouvidos como uma macia serpente de veludo, até atingir o centro da minha alma onde se localizam os meus pontos erógenos. Cada sentido tem pontos erógenos que lhes são peculiares. Me entrego à melodia. Estou derrotado. Esse canto gregoriano, talvez a maior produção da Igreja Católica no campo da música (como se sabe J. S. Bach era protestante) me faz esquecer tudo o que disseram teólogos, bispos e papas em todos os séculos de vida (e morte) da Igreja.

A sedução da música não pára aí. Amo os sinos. Para mim, um dos mais belos versos da língua portuguesa é o escrito pelo Álvaro de Campos: “Todo cais é uma saudade de pedra.“ Eu acrescento: “E todo sino é uma saudade de bronze.“ Os cais anunciam partidas e distâncias. Os sinos anunciam mundos que não existem mais. Não há nada mais contraditório que o repicar dos sinos nas cidades grandes. Às cidades pertence o barulho das buzinas, dos trios elétricos, dos alto-falantes. A música dos sinos é uma borboleta que entra na cela de uma prisão. Ela fala de mundos que só existem na saudade. A sua música nos vêm de lugares indefinidos num passado distante. Como eu acho que Deus mora é na saudade, o repicar dos sinos, que nada diz e nada significa, é um altar construído com sons. Fosse eu o Papa e ordenaria que os sinos fossem tocados três vezes por dia: às seis da manhã, ao meio dia e às seis da tarde. Os sinos fariam o corpo se lembrar de Deus mais que muitos sermões.

Onde estão eles, os sinos? Sei não. A Igreja se modernizou. Acho que ficou com vergonha de suas coisas antigas. Em São Paulo havia um seminário e no centro do pátio havia um sino que marcava o ritmo da vida. O sino desapareceu. No seu lugar, uma coisa moderna, uma cigarra estridente, parecida com voz clerical.

E a sedução dos olhos? As terríveis telas de Grünenwald, os Cristos crucificados mais horrendos que jamais vi, os pesadelos de Bosch, os transparentes Cristos de Salvador Dalí, as madonas de Rafael, a Pietà de Michelangelo. O protestantismo não produziu nada que pudesse se comparar a essas obras de arte, por medo da idolatria. O protestantismo sempre teve medo da beleza em sua objetividade plástica: é muito fácil que o encantamento do belo transforme o belo objeto em fetiche. Para não correr o risco da tentação os protestantes seguiram à risca o conselho evangélico: arrancaram os olhos.

Parei um pouco de escrever para folhear um maravilhoso livro que comprei - Le Vitrail (O vitral). Ali se encontra a arte do trabalho com os vidros, as cores, as transparências, a luz. Ah! Como é maravilhosa uma catedral gótica quando a luz do sol se filtra através do vitral. Isso não pode se transformar em ídolo. É como o arco-íris: não pode ser tocado.

Amo os vitrais. Foi uma maravilhosa poetisa, a Maria Antônia, professora em Mato Grosso, que me ensinou que a alma é um vitral.

“A vida se retrata no tempo
formando um vitral,
de desenho sempre incompleto, de cores variadas,
brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços,
ficando buracos irreversíveis...“

E amo também os espaços vazios das catedrais góticas, por onde a alma voa. E os mosteiros e seus claustros, os jardins, as fontes, as ervas. Também amo o incenso, erotização perfumada do meu corpo.

Vocês devem ter entendido: amo, na Igreja, tudo aquilo que saiu das mãos dos artistas. Mas, quando ouço as explicações do teólogos e mestres, o encanto se quebra e eu desejo que eles tivessem falado em latim, para que eu não tivesse entendido. A letra acaba com a música. Por isso, só desejo repetir o dito pelo Ricardo Reis: “Cessa o teu canto...“ Deixa que a Beleza, sem palavras ou catecismos, evangelize o mundo. Deus é Beleza.

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

Escrito por Gito às 22h40
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