
Edvan, não me lembro, deve ser este o nome dele. Negro, num lugar com maioria de pessoas claras e olhos azuis. Ele é funcionário na empresa perto de casa. Trabalhador exímio, nota-se claramente pelas mãos grossas e a sujeira na roupa. Não sei, pelo menos foi assim que notei quando o conhecí. Não deu muito tempo para conversa. Foi um barulho. Estrondo. Nunca imaginei que ouviria algo tão horrível. Todos correram, alguns olhavam para trás. Havia uma casa no caminho, ou melhor, um casebre. Uma senhora saiu da casa com uma criança no colo, mas sem tempo para pedir socorro, continuou a correr desajeitada entre a lama e as poças, quando a casa onde estava foi varrida pelo barranco que desmoronava. Foi então, que conhecí Edvan. Ele correu na direção da senhora que gritava: Minha filha está lá dentro, por Deus, minha filhinha!
Tratou de acompanhá-la, enquanto ela vinha em minha direção.
Edvan, me olhou nos olhos com olhos de quem reflete a coragem dos heróis e perguntou: Você pode cuidar dessa senhora ?
Antes de responder, ele percebeu que eu consentia com minhas ações, quando, fez o sinal da cruz e correu. Outros funcionários da indústria corriam, carregando pás e enxadas. Só Edvan, nada levava além de uma capa de chuva, um boné vermelho surrado e uma bota de bico de ferro, que ao pisar nas poças, fazia um barulho e espirrava lama para todos os lados, inclusive em seu rosto.
Enquanto, todos cavavam, ele desesperado, tentava adivinhar se haveria uma janela lateral. Com uma pá e certo desespero, conseguiu bater no que imaginou ser tijolos da parede. Depois de algum tempo, conseguiu ver por entre as vigas, barro, lama, água, sujeira e restos do que antes era uma casa, um cabelo loirinho. Suja de lama, as lágrimas que escorriam fazia um caminho digno de ser admirado, pela bochecha clara e lisa. Edvan, não queria admirá-la. Tratou de com algumas palavras, acalmá-la. Depois de mais algum tempo, a menina magricela, conseguiu sair pelo buraco que os homens da indústria fizeram entre escombros. Ela tinha um braço roxo, possivelmente quebrado e alguns arranhões. Toda molhada. O rosto dela colou no de Edvan, que a abraçou com força e a devolveu para a mãe que chorava compulsivamente na secretaria da indústria.
Quase nesse momento, Edvan recebeu um comunicado de uma ligação. Ainda ativo, como que se estivesse eletrocutado, pegou o telefone com a mão menos molhada:
- Alô ?
- Edvan ? Edvan! A nossa casa está alagada. Os meninos estão bem. Hoje, dormiremos na escola que virou albergue. Você está bem ? Tá tudo bem ?
- Graças a Deus. Tá tudo bem. - Soltou o fôlego e continuou: Por um momento achei que eu poderia nunca mais vê-los.
- Como assim, Edvan ? Aconteceu algo ?
- Não. É que eu conseguí devolver uma criança para a mãe.
- O quê, como assim ?
- Depois eu explico. Com calma. Por um momento eu entendí o coração de Deus.
- Que papo é esse, Edvan ?
- Deus, entrou na lama para devolver os filhos ao Pai. Entende ?
- Não Edvan, não entendo. Mas depois a gente conversa. Tem mais gente aqui na fila querendo usar o telefone.
- Ok. Amo vocês!
- Também amo você.
Alguns não foram resgatados a tempo. Ninguém entende uma tragédia. Mas no meio de tanta bagunça, há sempre tempo de pessoas fazerem boas coisas. E quando fazem, compreendem, nem que seja incompreensivelmente, o inexplicável. Edvan fez isso e se surpreendeu com tal sentimento. Ele beijou o crucifixo que o acompanha no peito e enquanto olhava a menina de olhos azuis, chorou e limpou as lágrimas com as mãos calejadas.
Nesse momento, eu pedí ao Senhor:
Deus, faça com que a dor dos que perderam tudo cesse.
Que neste momento, eles encontrem amigos e irmãos e veja que o melhor que destes a eles, a vida, foi poupada.
Para isso, que eles compreendam, que a de outro Ser, foi tomada.
Que eles tenham colchão, água limpa, alimento e todo o necessário para continuarem.
Acalma-lhes o coração, Deus.
Que eles sintam o amor de toda uma nação. Há caminhões com suprimentos saindo de todas as partes. Há um povo angustiado, sentindo a dor dos queridos e dizendo, com ações: Nem as muitas águas podem afogar este amor.
Acalma-lhes o coração e restitui o que foi perdido.
Como a moça na TV, que perdeu tudo e estava num abrigo, declarou: Eu estou feliz. Feliz porque os alimentos chegaram e a água também!
Como ela conseguiu se alegrar com comida e água que havia chegado depois de ter perdido tudo ? Sim, pela paz que excede todo o entendimento.
Dê aos teus filhos, é o que peço, sendo um deles.
E assim, me contou o menino loiro, parente próximo da menina de olhos azuis.
Gito.